Bairro Lagoinha

De Projeto Paisagístico
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Introdução

O trabalho a seguir é uma proposta estudada para o Bairro Lagoinha, em Belo Horizonte, tendo em vista sua condição atual e objetivando resgatar a identidade local, perturbada pelo avanço viário da cidade.

Para isso, serão necessários uma série de questionamentos e levantamentos, à seguir:

  • O que é o Lagoinha?
  • O que tinha e o que ainda tem?
  • Busca por fotos antigas que capazes de transmitir um pouco dessa evolução viária e social. - Visita ao local com registros audiovisuais, desenhos
  • Investigação de texturas, placas, tipologias construtivas, espaços residuais. - Determinar as barreiras e limites que cercam o bairro, com croquis explicativo.
  • Colagem com as fotos antigas e atuais, criando cenários imaginários.
  • Colagens positivas e negativas, que representem de forma criativa o que o bairro sofreu e o que poderia ser.

O maior dos questionamentos, entretanto, se faz pela discussão do novo sistema viário, que não considerou a vida do Bairro, e sim a necessidade de criar um eixo de passagem rápida para veículos de várias partes da cidade. O que o Bairro Lagoinha seria se não tivesse sofrido o atropelo do ‘desenvolvimento’? Imaginar cenários possíveis a partir dos potenciais que temos conhecimento do bairro seria uma estratégia interessante. O que poderia ser se os investimentos e intervenções fossem feitos priorizando outras demandas urbanas, além da justificativa de fluidez do trânsito, acessibilidade ao centro e etc. A ideia seria discutir como seria o bairro se fosse dada a devida importância para os pedestres, moradores, da mesma maneira que se deu aos automóveis.

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Apresentando o Bairro Lagoinha

Começando pelo início, anos atrás, quando Belo Horizonte era construída para ser a nova capital de Minas Gerais. Ao lado da região central, próxima à chegada principal da cidade, o bairro Lagoinha se ergueu como possibilidade de moradia para imigrantes diversos e operários mineiros. Enquanto a cidade formal se edificava lentamente, outra cidade precisava nascer. Ali, para além do serviço público, todo tipo de artes e ofícios eram encontradas e fortaleciam uma vida social e econômica para a região.

Sapataria, barbearia, marcenaria, alfaiataria, lavanderia. O mercado municipal, os jogos de futebol. As festas religiosas e pagãs. A chegada do cinema. Os domingos com bailes e quermesses e até um carnaval animado com o bloco Leões da Lagoinha.

Após acompanhar todo o crescimento e expansão da cidade, o bairro foi atropelado por avenidas, viadutos e túneis, sendo obrigado a desmanchar parte de sua história e se entregar ao esquecimento enquanto a cidade se consolidava como grande metrópole. Entretanto, ainda que tenha sofrido tantas modificações e perda de identidade, boa e valiosa parte da imagem continuam ali. A resistência constante contra o abandono existe, apesar da violência e dos 200 mil carros que o atravessam diariamente.

O carro precisa passar, diz a cidade. O lamento é passar e não parar para observar e ver além das muretas de concreto que rasgam sem dó o que um dia foi desfrute e lazer. Olhar para o bairro, hoje, não é uma forma de desfazer as agressões que o desenvolvimento urbano provocou, mas é pontuar e mostrar de forma carinhosa os significados que a região ainda carrega. É dedicar atenção para uma das raízes de nossa cidade, conferindo o devido cuidado que a população local precisa e merece.



Dinâmica Cidade-Bairro

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Belo Horizonte foi planejada para existir entre os limites da Avenida Contorno, pelo engenheiro Aarão Reis. Com o crescimento da cidade, a cidade extrapolou facilmente os limites previstos e logo em sua construção já surgiam vários bairros informais. O Bairro Lagoinha foi um dos primeiros e, por isso, está localizado bem próximo ao que hoje é o centro da cidade. Sua localização privilegiada fez com que o bairro fosse importante na dinâmica social da cidade, mas não houveram razões para poupar a tradicional área boêmia diante da demanda de expansão da infraestrutura viária. A partir dos anos 70, ocorreram frequentes intervenções na região para transformar o que hoje chamamos de Complexo da Lagoinha. Isso significou a construção de vários túneis, viadutos, encontro de grandes avenidas, trem, metrô e etc. Assim, criou-se ali um dos principais pontos para toda a dinâmica viária da cidade, que significou o fim na vida urbana outrora consolidada ali.

A escolha dessa área se dá, exatamente, por ser um ponto fundamental na rotina da população em geral e que, ainda assim, é tratada com enorme descaso pelo poder público. Para uns, passagem. Para outros, o ruir de memórias de uma vida que já não está mais ali. A dificuldade que a população local enfrenta é extensa e pouco a pouco o bairro vai se esvaziando, dando espaço para mais problemas sociais e garantindo livre-arbítrio para políticos e empresariado.

Recentemente foi criada uma Operação Urbana Consorciada (OUC) que tem como objetivo melhorar as condições de uso da cidade. Essa operação engloba a área de estudo desse trabalho. Porém, é importante uma análise crítica às propostas e sua aplicabilidade. De acordo com o mapa abaixo, a região da Lagoinha possui parte correspondente a "Quadras de preservação"(II) e "Quadra Praça" mas, na realidade, a implantação de tais medidas deve prever alguma ação com relação ao contexto viário da região e isso, visivelmente, nunca foi uma questão levada em consideração de acordo com os interesses da população local. A inserção do Complexo da Lagoinha foi feita com descuido, criando vários espaços residuais, ruas inacabadas, calçadas inexistentes, poucos acessos para pedestres e, por isso, é um espaço em crescente abandono. Sendo utilizado apenas por quem precisa passar pelo local, o que também não é uma situação agradável e inibe uma enormidade de travessias possíveis na cidade, criando ambientes segregados que, apesar de estarem separados "apenas" por uma avenida, estão distantes por uma dificuldade subjetiva. Aos carros, já é um percurso delicado e complexo, como o próprio nome da região define. Aos pedestres, o ambiente é muito hostil. Assim, mesmo com sua boa localização e com o enorme potencial de uso, Belo Horizonte perde para os carros uma grande área urbana.

O questionamento que queremos levantar: Imaginando que existisse interesse público em reverter a situação da região, de qual forma poderíamos fazer diferente?

Mapa da OUC com destaque na área estudada.




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Diagramas Processuais

Interpretamos a área de atuação como um ambiente já consolidado que recebeu intervenções por uma demanda maior, no contexto metropolitano, e que foi negligenciado por falta de interesse em se investir nas demandas de pedestres e moradores.

Compreedemos que o progresso e a expansão da cidade exigem algumas medidas que podem desagradar e prejudicar determinado contexto, por isso é de fundamental importância priorizar uma boa execução dessas intervenções visando reduzir essas interferências ruins e compensar de alguma forma.


Hoje, o Complexo da Lagoinha carrega anos de descaso e reverter tais ações é algo inviável. Mas, com investimentos adequados, é possível propor melhorias e reconfigurar completamente a relação dos bairros do entorno, se apropriando dos vazios ao longo da infraestrutura viária.


A área tem enorme potencial se for requalificada. Ampla, ótimo relevo, localização ótima. Como transformar a permeabilidade das barreiras existentes?






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Análise Propositiva da Área

A intenção do trabalho é fazer um resgaste simbólico das riquezas que resistiram ao tempo através das transformações viárias, para retomar a identidade local. Talvez seja um olhar utópico e romântico, mas acreditamos que talvez seja esse o solo fértil para boas ideias e ações palpáveis. A partir disso, esperamos desenvolver propostas, utópicas ou não, para contornar todos os recortes, rasgos e delimitações que a cidade impôs.

Exemplo: IAPI - símbolo histórico da cidade.


Esquema representativo que destaca o impacto do sistema viário imposto na área.


Esse trabalho se propõe também se atentar para a necessidade de áreas públicas verdes de qualidade. O que se pode observar da condição atual do bairro são pequenas áreas verdes rasgadas pelo desenho viário, sendo, portanto, pouco convidativas, servindo apenas como área residual do “avanço” dos carros no bairro.

Praça do Peixe como espaço residual.

Por fim, a questão da movimentação pedonal, também prejudicada pelo avanço viário no Bairro, sem a responsável proposta de caminhos alternativos para moradores e pessoas de passagem, desestimulando a movimentação e afetando o bairro, seu comércio e sua rotina.


Área de Intervenção

Mapa dinâmico da cidade.

Esse mapa demonstra a relação entre espaço construído e espaço dedicado ao sistema viário. Branco é a área edificada, rosa é não-edificada e cinza são vias. O verde, no centro, é a área de intervenção, onde as vias serão retiradas ou feitas subterrâneas.

Montagem Imagética

Colagem da nova estrutura pedonal no Bairro Lagoinha.

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Considerando a situação hipotética onde todo o problema viário do complexo da lagoinha foi resolvido e redistribuído pela cidade, o metrô agora funciona plenamente e o espaço residual que antes era o complexo viário mais importante da cidade precisa de um novo uso, um uso que integre pessoas e traga novas formas de interação entre lados que ficaram por tempos separados. Um uso que esteja alinhado à uma nova consciência de uso da terra e todos os seus benefícios, a retomada da escala humana.

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Projetos de Referência

Paris Plus Petit

Projeto do escritório MVRDV, a proposta Paris Plus Petit observa o futuro da capital de Paris e faz uma proposta para sua tendência de crescimento e aglomeração. A ideia é aumentar a atratividade da capital juntamente com a criação de soluções para o adensamento. O que chamou atenção do grupo sobre esse projeto é como os arquitetos trabalham com os diferentes níveis da cidade, propondo novas superfícies. Ao condensar os espaços, eles propõem a compactação inteligente da cidade, e também a separação em planos, colocando o transporte viário na porção subterrânea.

Paris Plus Petit, com diferentes planos sobrepostos.


Praça Mauá

Localizada no Rio de Janeiro (RJ), a Praça foi um grande símbolo histórico da cidade do Rio de Janeiro, enquanto importantes edifícios eram construídos a sua volta, como o grande prédio do Jornal da Noite, de 22 andares. Décadas mais tarde, a praça perdeu seu caráter cívico, dando lugar a um era marcada pela presença extensiva de elevados do Perimetral, que, apesar de serem uma solução para a necessidade do tráfego de veículos, encobertavam edifícios históricos e empobreciam o espaço público. Com a reforma atual, os elevados foram retirados e a passagem de carros foi desviada ou feita de maneira subterrânea, permitindo a volta do destaque visual e histórico da praça e dos edifícios históricos que a cercam, valorizando a praça e restaurando o uso ao público pedonal.

Praça Mauá, antes e depois da reforma.


Parque MFO

O escritório Burckhardt+Partner em colaboração com Raderschall Architects desenvolveu o projeto de parque vencedor de um concurso suíço para um novo espaço público na capital, Zurich. De acordo com o site do escritório, o grande “parque-casa” foi construído com um arame duplo (sendo a maior estrutura pergolada do mundo) coberto de vegetação, para abrigar o público no seu interior com a proteção e sombra natural. O objetivo é promover atividades culturais e de lazer, como jogos, esportes, encontros, encontros de todos os tipos, filmes, concertos e apresentações teatrais. Isso desperta o interesse do grupo por se tratar de um exemplo de aproveitamento do espaço público, que fornece diversas opções para os moradores e visitantes.

Estrutura externa do parque MFO.
Projeto interno do parque MFO.