Grupo 4 2018-2

De Projeto Paisagístico
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Comunidades Tradicionais da RMBH

Apresentação do projeto

objetivos

Pretendemos colocar em pauta outras visões do que é a natureza urbana, partindo das concepções de comunidades tradicionais, que supostamente têm elaborações distintas das sociedades capitalistas ocidentais, das quais fazemos parte. A intenção é investigar a diversidade e os contrastes das noções culturais do que é natureza, pelo ponto de vista de grupos que têm uma relação mais próxima com a natureza. Investigar também a relação desses grupos com a cidade e como seu modo de vida se desenvolve no ambiente urbano. Quais são as outras paisagens possíveis para além do conhecimento institucionalizado na universidade? Quais são os diversos saberes relacionados à natureza que coexistem no mesmo espaço urbano que habitamos?

justificativa

Tendo a cidade como espaço que abriga a diversidade, surgiu uma vontade de compreender como ela se relaciona com os povos de comunidades tradicionais e como eles se relacionam com ela, tendo como foco a questão da natureza urbana. Sabendo que muitas vezes a produção do conhecimento não é neutra, e nem sempre é plural, buscamos outras percepções sobre o “habitar na cidade”, de grupos muitas vezes invisibilizados nesse espaço.


“Quem pode falar?” “Quem não pode?” “Sobre o que podemos falar?” Existe um medo apreensivo de que, se o colonizador falar, o colonizado terá que ouvir e seria forçado a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades do ‘Outro’. Grada KILOMBA, Descolonizar o conhecimento


“A mesma cartografia abissal é constitutiva do conhecimento moderno. Mais uma vez, a zona colonial é, par excellence, o universo das crenças e dos comportamentos incompreensíveis que de forma alguma podem considerar-se conhecimento, estando, por isso, para além do verdadeiro e do falso. O outro lado da linha alberga apenas práticas incompreensíveis, mágicas ou idolátricas. A completa estranheza de tais práticas conduziu à própria negação da natureza humana dos seus agentes.” Boaventura de Souza SANTOS, Para além do Pensamento Abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes


“É muito importante garantir o lugar da diversidade, e isso significa assegurar que mesmo uma pequena tribo ou uma pequena aldeia guarani, que está aqui, perto de vocês, no Rio de Janeiro, na serra do Mar, tenha a mesma oportunidade de ocupar esses espaços culturais, fazendo exposição da sua arte, mostrando sua criação e pensamento, mesmo que essa arte, essa criação e esse pensamento não coincidam com a sua idéia de obra de arte contemporânea, de obra de arte acabada, diante da sua visão estética, porque senão você vai achar bonito só o que você faz ou o que você enxerga.” Ailton KRENAK, O eterno retorno do encontro

metodologia

Como método, pretendemos utilizar conversas semi-estruturadas com as comunidades tradicionais, dialogando com a percepção desses grupos de sua experiência na cidade e com relação à natureza urbana. Separamos alguns tópicos a serem abordados que possam ajudar a balizar essa conversa, sem predeterminar as respostas dos nossos interlocutores:

   - de onde vêm? se são originários da RMBH, ou vêm de outras regiões
   - como é cotidiano na cidade, onde se concentram suas atividades?
   - como se dá sua relação com a cidade?
   - como entendem a natureza? qual a relação que estabelecem com a natureza?
   - práticas cotidianas do grupo de relação com a natureza
   - se vêm de outras regiões, como foi chegar à RMBH?

A definição dos produtos se dará a partir das conversas, considerando as diferenças entre os grupos e nossa forma de entender a natureza urbana.

outra natureza (vídeo)

O trabalho buscou investigar a temática da natureza urbana a partir de diferentes visões, como das comunidades tradicionais, que supostamente têm elaborações distintas das sociedades capitalistas ocidentais das quais fazemos parte. Sabendo que a produção do conhecimento não é neutra, e nem sempre é plural, buscamos outras percepções sobre o “habitar a cidade”, de grupos que muitas vezes são invisibilizados nesse espaço.

Nesse sentido, a partir de alguns questionamentos, realizamos conversas semi-estruturadas com quatro pessoas, buscando entender a relação que estabelecem com a cidade e a natureza. A primeira conversa foi com o Pagé, da etnia Pataxó, morador da ocupação Carolina Maria de Jesus. A segunda foi com o Edgar, indígena da etnia Xakriabá e estudante de mestrado na Antropologia da UFMG. E por último, fizemos duas visitas ao Muquifu (Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos), e conversamos com o Padre Mauro, diretor do museu e com o Cleiton, produtor cultural e artista plástico.

Em busca de apresentar essas conversas dando voz aos entrevistados, produzimos um vídeo com os principais pontos abordados, e ilustramos as falas com imagens e desenhos que representam em parte essa visão sobre a natureza, que cada um apresentou. É importante ressaltar que essas falas não representam necessariamente a visão de um grupo, mas uma percepção individual dessas pessoas.

Tomando como base as discussões feitas em sala de aula, acerca do conceito de natureza e a sua relação com a cidade, percebemos que há uma diferença nítida entre a forma como nós e os povos tradicionais pensam a natureza. As cidades foram marcadas por um processo de urbanização que negou a natureza em nome do progresso: avenidas cobrindo rios, poluição das águas, árvores derrubadas e solo impermeabilizado. Por outro lado, foi construída uma natureza artificial, cercada e delimitada para o lazer e fuga do caos urbano: parques, jardins, oásis e sítios. A cidade não só negou a natureza, como negou a existência dos povos tradicionais em um território que sempre lhes pertenceu: aldeias e quilombos são espaços legítimos da cidade. Contrapondo essa visão, Edgar critica a forma como nós, ocidentais, lidamos com a natureza, e defende que ela está intrínseca ao ser humano, uma vez que nós também somos natureza. Sendo assim, o imaginário para a natureza urbana seria repensar as relações, para gerar uma mudança na paisagem.

A história de resistência cultural do Muquifu é contada a partir da visão de Padre Mauro e Cleiton, que mesclam em sua narrativa um pouco da história de cada uma das 14 mulheres que fizeram parte de sua fundação. A própria localização do museu já evidencia os conflitos da cidade uma vez que se trata do limite entre os bairros Santo Antônio, São Pedro e a Vila Estrela. Padre Mauro narra a história do Muquifu ao mesmo tempo que reflete sobre o lugar do negro na sociedade e, consequentemente, na cidade. O museu tem o intuito de resgatar histórias e preservar tradições de grupos cuja memória vem sendo sistematicamente deixada ao esquecimento por instituições convencionais. O Jardim Dona Wanda, criado em seu interior, é um exemplo de busca pela natureza dentro território urbano que não parte de um projeto paisagístico desenvolvido por um profissional, mas da necessidade de um grupo de cultivar ervas essenciais para a prática de seus saberes, que, acredita-se, foram herdados de tradições quilombolas. O jardim se mantém como espaço onde há tanto o cultivo de plantas, quanto expressões artísticas e registros da história do Muquifu. Sua importância abrange toda uma comunidade, que dele cuida e usufrui.

As visões de natureza urbana apresentadas levam a um questionamento das formas como as sociedades capitalistas ocidentais tratam a relação entre natureza e cidade: a negação daquela em favor desta, a exclusão do ser humano no que é considerado natural, quem são os atores dessa relação etc. As falas dos entrevistados apontam para ideais de cidade pensados de outras formas, que incluem comunidades historicamente excluídas e seus modos particulares de entender o espaço em que vivem. Tal questionamento sugere outras formas de se pensar o projeto paisagístico na cidade, de modo que este não seja imposto de cima para baixo, mas construído de maneira coerente com a diversidade que o território urbano abriga.

Trabalhos Práticos

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