Usuário:André Siqueira

De Projeto Paisagístico
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O conhecimento em paisagismo, como apresentado por Tabacow (2006), é um campo em constante discussão e que apresenta diversas perspectivas. Algumas vezes, se restringe ao chamado paisagismo com finalidades cosméticas, como apresentado no texto de Heszog (2009), outras em uma perspectiva infraestrutural, como é a ideia de ecogênese de Fernando Chacel, ou ainda nos espaços de convívio nas “paisagens construídas” (BARRA, 2007). Quando tratamos de projeto paisagístico, então, é impossível se limitar a determinado sectarismo, pois tratamos do ambiente urbano - que por sua complexidade exige uma visão mais holística do paisagismo.

Em relação ao tratamento cosmético dos jardins e parques urbanos, é possível citar a polêmica envolvendo as bromélias, que apesar de "queridas", se tornaram vetores de disseminação da dengue no Rio de Janeiro, ou ainda os jardins da Praça da Liberdade, que exigem manutenção e troca de mudas constantes pela não adaptação vegetativa. Ou ainda na chamada "bustificação” das praças no Brasil (TABACOW, 2006) - que congelam rostos de nomes muitas das vezes desconhecidos (ou que não fazem sentido para maior parte da população), e se tornam objetos de (não-)contemplação. Acredito que o paisagismo deve sim ser entendido como paisagem construída - socialmente, historicamente, ecologicamente - mas que, portanto, deve extrapolar a qualidade contemplativa e considerar outros aspectos, como a adequação de espécies ao ambiente, o grau de manutenção exigido, a permissividade do convívio das pessoas - a diversidade de usos que o espaço público pode abrigar. "As paisagens culturais não nascem memoráveis, mas podem ir se tornando ao longo do tempo, em função da qualidade de sua concepção, de sua flexibilidade aos novos usos e mesmo de sua aceitação pela população local" (BARRA, 2007).

Outro aspecto importante é relativo ao contexto econômico no qual os projetos paisagísticos estão inseridos. Exemplos notáveis são as operações urbanas - simplificadas ou consorciadas - em Belo Horizonte (reforma da praça da Savassi, por exemplo, ou na proposta de criação de quadras-praça da ACLO) ou ainda nos pocket parks - "varandas urbanas". Percebe-se uma tendência global na criação de espaços privados de uso público. Se por um lado, "a cidade se tornaria inviável sem esses espaços de convívio” espalhados pelo tecido urbano, como defende Eduardo Barra, por outro é necessário se atentar para seu contexto, como localização ou formas de financiamento, que se tornam cada vez mais dependentes do mercado imobiliário e não são voltados ao interesse de fato público. Tais processos podem validar e intensificar a segregação socioespacial nas cidades, marcadas por processos de gentrificação e exclusão.

Outro aspecto que se relaciona no atual processo de globalização se refere a tendência a massificação e generalização dos projetos. Como defende Cecilia Herzog, "pode-se encontrar em quase qualquer lugar do mundo os mesmos padrões estéticos, é a globalização descaracterizando a diversidade e tirando o “espírito do lugar” dos lugares." também presentes nas estratégias de marketing das construtoras e escritórios de arquitetura. Se idealiza paisagens globais replicáveis a contextos diversos.



BARRA, Eduardo. O homem e a paisagem construída. Arquiteturismo, São Paulo, ano 01, n. 006.03, Vitruvius, ago. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/01.006/1349>.

BARTALINI, Vladimir. Paisagismo e ecogênese. A importante contribuição de Fernando Chacel ao paisagismo brasileiro. Resenhas Online, São Paulo, ano 01, n. 001.05, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.001/3274>.

HERZOG, Cecilia P.. Sobre estética ecológica. Reflexões a partir de Rosa Kliass e Fernando Chacel. Drops, São Paulo, ano 09, n. 027.05, Vitruvius, maio 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/09.027/1795>.

TABACOW, José. Sobre como difundir conhecimento em paisagismo. Resenhas Online, São Paulo, ano 05, n. 057.01, Vitruvius, set. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/05.057/3132>.