Usuário:Cecilia VM

De Projeto Paisagístico
Ir para: navegação, pesquisa

Paisagem


Assumindo-se que todo significado dado a um elemento está atrelado ao contexto em que esse elemento existe, não poderia ser diferente, no estudo da paisagem. Sabe-se, que possui um sentido complexo que relaciona elementos físicos e objetivos como o território e as estruturas naturais, concretas e geográficas que se dispõe sobre ele a elementos subjetivos e abstratos, como a interpretação e vivência humana daquele espaço e as relações que acontecem no mesmo. Serão estabelecidas a seguir, definições sobre este conceito e interpretações sobre as mudanças que a paisagem sofreu no decorrer do tempo para uma compreensão mais ampla de seu significado.

1. Objetividade e Subjetividade

Inicialmente pode-se, portanto, perceber a paisagem como um conjunto de elementos diferentes entre si, que formam o todo da natureza, que então, recebendo a interpretação humana, de caráter tanto subjetivo como objetivo, denomina-se paisagem. É importante salientar que a paisagem, percebida como objeto pictórico de contemplação, e representada nas artes é, senão, um dentre tantos aspectos atribuídos a ela, no qual está envolvido o ser humano e seu sentimento e percepção projetados sobre a natureza. Tem-se uma infinidade de variáveis para a percepção desse ambiente que se dão nos próprios elementos disponíveis na natureza, que variam por região, clima, localização e na subjetividade da interpretação humana que varia de acordo com a própria individualidade do ser além das influências culturais e experiências acumuladas ao longo da vida do mesmo. Um mesmo espaço é interpretado de diferentes formas por diferentes pessoas. A natureza não será percebida da mesma maneira por um artista, um soldado estrategista e um cientista.


2. Intervenção humana no meio e modificações na paisagem

A evolução da ocupação humana no território natural gera mudanças significativas na paisagem. Em primeiro lugar, tem-se o crescimento numérico , com uma estimativa de crescimento cada vez mais acelerado, de forma que a totalidade da população mundial dobra em intervalos de tempo cada vez menores. A distribuição dessa população no planeta é também importante, tendo em vista que aproximadamente 70% do total se encontra nos países de Terceiro Mundo e, sendo nesses países o maior aumento proporcional da população. Além disso, um fator essencial é a grande e continuada migração dos habitantes do campo para a cidade, com a crescente proporção de moradores urbanos sobre os moradores rurais. Sendo assim, pode-se afirmar que os espaços da cidade tornam-se cada vez mais concorridos, comandados pelo capital e pela especulação imobiliária que ditam o valor da terra. Assim, tem-se uma redução de espaços, redução de jardins e da paisagem natural, com a constante criação dessa nova paisagem artificial formada pelas construções humanas. Essas modificações, acontecendo em períodos de tempo muito curtos, implicam em modificações drásticas da paisagem como se conhecia e tem-se, então, a conformação de um ambiente hostil e estressante.


3. A Paisagem como lugar de morar

Por Koolhas e Boeri, tem-se uma interpretação da paisagem não apenas como elemento natural mas também a compreensão da paisagem da cidade como componentes desse todo. Para entender mais a fundo, buscam na origem da palavra o seu significado. Do latim pagus que significa o território onde se habita e, portanto payes é aquele que habita o lugar. Assim, tem-se que a atribuição de paisagem dada a cidade, se da muito menos pelo modo de ver o mundo e muito mais na experiência de habitar o ambiente construído. Destacam-se no modo de ver paisagístico três questões essenciais, sendo a primeira, a delimitação de um território de observação, a segunda, a característica “superficial” do que se observa (no sentido do que é visível e palpável) e, terceiro, a incorporação dos aspectos temporal e de movimento na experiência do espaço. Estes aspectos se incorporam na percepção de paisagem, pelo fato de o espaço em que vivemos estar em constante mudança e reconstrução, constante crescimento renovação o que não permitiria uma mesma visão arcaica de paisagem. Se a paisagem se renova, sua percepção também deve se atualizar.

4. Percepção, Representação e Interpretação da Paisagem

Quando se trata da percepção e representação da experiência urbana ao longo do tempo, tem-se uma importância voltada as artes e aos movimentos artísticos que proporcionaram essa documentação da evolução da paisagem urbana. Momentos tratados com dada importância, são o movimento realista e o surgimento da fotografia, que permitiram uma documentação mais precisa dessa paisagem. Documentação que representa os principais monumentos arquiteturais, pontos de vista e perspectivas privilegiadas, ruas, avenidas e aglomerações. Além disso, estabelece uma caracterização das chamadas cidades-capital que são essencialmente, espaços que deixam de ser limitados para serem contínuos e inacabáveis e, além disso, são espaços onde reina o interesse privado e do dinheiro, que buscam nesses espaços mais opções de rentabilidade. O crescimento dessas grandes cidades gera a necessidade de se integrar o passado e o presente, reestruturando e rearticulados as partes da cidade para que a sua dinâmica possa ser atualizada aos novos contextos. O novo porém, sempre evoca o antigo, pois o novo é construído sobre os conhecimentos e os registros do pré-existente. Um outro ponto tratado pela autora se refere a evolução tecnológica como geração de novas possibilidades de representação da paisagem, porém, trás também a crítica de que esses meios podem gerar certo distanciamento do meio representado. Enquanto as tecnologias de representação e percepção eram limitadas, havia uma maior proximidade e familiaridade do expectador com aquela paisagem.

Tendo em vista a paisagem da cidade, pode-se fazer uma segunda análise que contextualiza as descontinuidades existentes no tecido urbano. Pode-se chamar esses espaços de terrain vague, que é um termo francês de origem latina e germânica que revela em sua essência a determinação de espaços vazios, de caráter incerto e alternante. Essa definição, no contexto da cidade ajuda na delimitação e identificação desses espaços, visto que constituem o que seria o oposto da aglomeração e do tecido urbano. No contexto da cidade, esses espaços correspondem a áreas inseguras e improdutivas e, é exatamente assim que a fotografia busca esses espaços. Nos filmes e representações eles aparecem como símbolo da insegurança, visto que são espaços que não são dominados pelo homem. Trás, porém uma crítica a fotografia ao afirmar que não se conhece uma cidade pela fotografia pois, a fotografia corresponde a uma estrutura rígida e enquadrada, enquanto a realidade é dinâmica e só pode ser realmente percebida através da experimentação e vivencia. Arquitetura e Planejamento Urbano aparecem para atuar nessa questão como oposição ao estranhamento gerado pelos terrain vague , e acaba por contribuir com a força homogeneizadora do espaço. Para combater esse caráter, a autora propõe a arquitetura da dualidade que seja capaz de lidar com a continuidade e a descontinuidade, com respiros inseridos em uma malha contínua, se opondo a lógica capitalista produtiva e tecnológica.