Usuário:Gabriel Nardelli

De Projeto Paisagístico
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Terrain Vague Iganisi Solá-Morales

Referencais fotográficas do texto.

1- The Family of Man.

The family of man foi uma exposição de curadoria de Edward Steichen no MoMA, no ano de 1955. Era composta de 503 fotografias agrupadas em temas que seriam pertinentes a todas as culturas, tais como amor, crianças e morte. As temáticas tinham com intuito expressar o humanismo nos anos pós segunda guerra mundial.

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MoMA The family of man


2-The Americans - Robert Frank

Ainda na linha do humanismo o livro publicado por Robert Frank retrata o estilo de vida dos americanos de diferentes classes, ressaltando o sentimento de solidão que percebia como uma das principais características da época.

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A fotografia se desloca dos habitantes para passar a retratar os espaços em sí. Fotografias que ilustram o trabalho dos fotógrafos que buscam retratar os lugares vazios de significado das cidades. Estes locais, os quais os autor nomeia com a expressão francesa " terrain vague" são tidos como áreas estranhas, que embora tenham características físicas da cidade estão de fora do ciclo de produção da mesma, econômica ou socialmente falando.

John Davies

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Apesar do estereótipo, de violência, marginalização ou até mesmo contaminação, essas áreas são um grande atrativo para as artes em geral e em especial para a fotografia. Parte da atração que estas áreas esquecidas pela cidade tem está ligada exatamente a atual ausência de atividades, da possibilidades existentes, da liberdade de expressão.

David Plowden

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Thomas Struth

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Jannes Linders

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Manolo Laguillo

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Terrain Vague e o conceito de paisagem.


O simples olhar sobre a cidade e seus elementos, edifícios, carros, pontes, pessoas, fabricas, casas, ruas, assim como o deslumbre da natureza com suas árvores, matas, córregos e animais não configuram para nós paisagens. Os elementos enquanto meras imagens não são capazes de tocar as emoções humanas. A paisagem deve ir além. Deve criar algo único a partir das relações entre estes elementos.

O conceito de paisagem se difere do de natureza. A natureza é entendida, segundo Georg Simmel como o conjunto geral de todos os elementos existentes em um continuo espaço-temporal. Para sua existência é necessária sua totalidade, ou seja a natureza é indivisível.

Já a paisagem necessita de uma demarcação, que é realizada sobre a natureza existente. A demarcação geradora da paisagem é unica e definida em um espaço tempo específico, que pode ser momentâneo ou duradouro. Além da demarcação do espaço e do tempo é essencial ainda uma reflexão sobre a especificidade, seja ela estética, óptica ou impressionista da demarcação. Dessa forma entende-se que uma paisagem deve ter características que ajudem a diferencia-la do todo unificante que é a natureza. É preciso ressaltar porém que, apesar de possuir características distintas, a paisagem não é independente da natureza, estando ainda intrinsecamente ligada a ela. O recorte realizado para a demarcação da paisagem requer uma percepção e interpretação particulares, dessa forma dependentes da cultura e da individualidade do observador.

A paisagem urbana é formada pela ação humana sobre a natureza. Elementos culturais e naturais interagem para criar a paisagem. Dada a característica cultural das intervenções no espaço, pode-se supor que grupos culturais diferentes terão características de ocupação diferentes, bem como um mesmo grupo pode alterar sua forma de se relacionar com a natureza e com o espaço com o passar do tempo. Desta forma-se destaca-se que uma das características marcantes dos espaços habitados é sua heterogeneidade.

O Terrain Vague é um resultado da ação humana sobre a natureza. Como recorte da cidade é caracterizado como uma paisagem. Um produto específico da ação cultural sobre a natureza, e por isso possível de ser interpretado, significado e percebido de várias formas.

A análise realizada por Ignisi Solá-Morales usa como base os registros fotográficos destes espaços e sua significação para os habitantes da cidade contemporânea.

Antes de discutir as significações cabe primeiro caracterizar o indivíduo e seu meio, caracterizado por Odo Marguand como a época da estranheza ante o mundo. Tal estranheza é resultado da velozes mudanças na realidade, na ciência, nos costumes, e nas experiencia. Resultado deste estranhamento é a fugaz relação entre sujeito e seu mundo. Segundo Julia Kristeva a estranheza dos homens contemporâneos é a estranheza ante eles próprios, sua impossibilidade de se encontrarem e de assumirem suas reais identidades interiores. Vive-se sob uma ideia de liberdade porém sob o paradoxo de serem reféns de suas própria identidades externas. A dualidade e o paradoxo da vida contemporânea, se refletem na significação destes espaços vagos, esquecidos.

Se por um lado representam os espaços obsoletos, pobres, ultrapassados, abandonados, esquecidos e perigosos das cidades, normalmente representados por áreas industriais, estações de trem, portos, áreas residenciais inseguras e lugares contaminados, por outro podem muito bem ser observados pelas suas potencialidades, representado para a sociedade que busca escapar do modelo vigente e homogeneizador uma possibilidade de utopia, a liberdade de se desenvolver ali um novo projeto de cidade, a experiencia de viver o desconhecido.

O "Terrain Vague" talvez seja tão instigante ao artista devido à dualidade e o paradoxo constante da vida do habitante urbano contemporâneo.

Representa ao mesmo tempo o esquecido e o re-encontrado, o passado e a promessa do futuro, a distopia e a utopia. São os focos do estranhamento da cidade, a fuga da massificação e da homogeneização. Homogeneização essa que, por meio da arquitetura e do urbanismo, constantemente ameaça estes espaços.

A arquitetura e o urbanismo buscam dar ordem, sentido, limite. Impõem uma linguagem comum ao restante da cidade para que o espaço seja de fácil leitura para todos, às custas, porém, da perda da identidade local.

Como forma de intervenção nos "Terrain Vagues", segundo o autor, não há outra saída se não a atenção aos "fluxos, das energias, dos ritmos que o passar do tempo e a perda dos limites têm estabelecido". Dessa forma a intervenção deve buscar o respeito com o presente do espaço, para que este não se perca na continuidade da cidade planejada.




SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado

SOLA-MORALES, Iganisi. Terrain Vague

SIMEL, George. A Filosofia da Paisagem.