Usuário:Kauelima

De Projeto Paisagístico
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TEMA 1: PAISAGEM

A partir de diferentes abordagens envolvendo conceitos, história, características e interpretações da paisagem, busca-se uma melhor compreensão do assunto, tendo em vista a nossa função primária enquanto futuros arquitetos e urbanistas, modeladores do espaço construído.

Iniciação à paisagem

Georg Simmel defende que ao contemplar a natureza - que refere-se a tudo que nosso campo de visão alcança - não estamos de fato observando uma paisagem. A natureza não existe em fragmentos, ela é entendida como um todo, enquanto a paisagem é uma unidade desse todo, apresentando sentido em seu contexto geral e devendo possuir algo novo, uno. Diante disso, é fundamental a ação humana para a geração da paisagem, tendo em vista que a natureza nada entende de individualidade, separação em unidades particulares e reorganização. Como a paisagem se reabre à vida universal, o autor questiona quem determina a sua seleção e a sua composição. Como resposta, é realizada uma analogia entre a pintura e a ação humana: no primeiro caso, o artista extrai um fragmento do todo, tornando-o uma unidade; enquanto no segundo caso o ser humano, seus sentimentos e suas percepções são os agentes envolvidos no processo de formalização da perspectiva. Também, é abordado a carga sentimental atribuída, definida como composição anímica da paisagem. No que diz respeito a esse conceito, ele trata de um estado mental entendido pelo observador e não necessariamente atribuído aos elementos externos da paisagem. Por outro lado, ele se faz necessário para integrar todos os campos de uma paisagem contida em uma unidade perceptível. Apresentados esses argumentos, como agir diante a presente situação contraditória? Simmel defende que é preciso ponderar que para o ser humano o ato é ao mesmo tempo contemplativo e afetivo, não havendo como prever se o que acontece primeiro é a representação ou o sentimento. Entende-se então, que um só ato psíquico é responsável pelo desmembramento da unidade de paisagem e de sua disposição anímica. Nesse sentido, é interessante ressaltar que são muitos os fatores que influenciam a paisagem, podendo variar de acordo com aspectos físicos e/ou subjetivos da interpretação humana, passando pelas referências culturais e as experiências de cada indivíduo. Desta forma, uma paisagem pode ser interpretada de diferentes formas, por diferentes pessoas, estando todo ser humano hábil para sua observação. Conclui-se então que a paisagem não existe sem a ação/participação humana, da mesma maneira que não há separação daquilo que se vê e daquilo que se sente.

O homem e a paisagem: prelúdio

Milton Santos trata da modificação do espaço através da ocupação humana no território natural, o que traz mudanças para a paisagem e para o nosso modo de vida, que é aperfeiçoado pelo capitalismo. O campo gradativamente acaba sendo substituído pelos grandes centros urbanos e, até mesmo a natureza - espaços não ocupados por edificações - vem sendo transformada em comércio através da implantação de determinadas estruturas, como a criação de trilhas. Nesse sentido, o autor defende que o nosso espaço está sendo dividido em virtude do capital, onde áreas não produtivas são forçadas a ser capitalizadas, mesmo que desvalorizadas. As novas formas de organização espacial fazem com que haja a divisão entre paisagem natural e artificial, o que não acontecia anteriormente, pois predominava a paisagem natural. Trata-se diretamente do alto crescimento populacional em contexto global cada vez mais acelerado, com a população dobrando em intervalo de tempo reduzido.

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Associado a isso, há o crescimento de demandas e o aparecimento de problemas das mais diversas ordens - como a desigualdade social, a fome e a miséria -, sendo que os avanços tecnológicos permitem ao homem controlar o meio em que vive, trazendo comodidade e/ou acentuado/criando problemas, ao passo que também tornam a paisagem artificial graças ao controle da temperatura, da iluminação e da inserção de novos elementos, por exemplo. Com o êxodo rural e a concentração da população nas cidades, os espaços urbanos tornam-se cada vez mais concorridos, alimentando o mercado imobiliário e gerando o surgimento de vilas e favelas/periferias. Através desta artificialização do meio, temos a criação de vários espaços: políticos, comerciais, industriais, sendo que a configuração territorial acontece de acordo com os elementos artificiais e naturais e seus usos sociais. Nesse sentido, temos como exemplos as estruturas referentes à mobilidade - como estradas e canais -, e também as moradia e os serviços, como é o caso de edifícios de usos residenciais, comerciais e industriais. Tendo conhecimento deste processo, é perceptível como o espaço - e a paisagem - natural vem sendo substituída pela artificial, tornando o território especulativo e de produção capitalista, bem como cada vez menos verde e mais desigual. Além da modificação da paisagem, temos também o condicionamento da vivência humana, que se torna gradativamente sujeita as construções humanas e não naturais, trazendo o desequilíbrio emocional e físico, desvinculando-se do seu contexto in nature.

O homem e a paisagem: entrelaçamento a partir do construído

O arquiteto Rem Koolhaas é conhecido por não renegar o período em que vivemos e seu sistema econômico vigente. Pelo contrário, busca soluções para viabilizar suas soluções arquitetônicas e urbanísticas ao contexto em que elas se inserem, sempre buscando a melhor integração entre as condicionantes, como por exemplo as questões tecnológicas. Deste modo, em conjunto com Stefano Boeri o arquiteto trata da interpretação da paisagem não apenas como aquela natural, mas também envolvida pela construção humana: a paisagem natural e artificial formando um todo. Além de buscar na etimologia da palavra paisagem o seu significado - do latim 'pugus': onde se habita -, os autores defendem que a interpretação da paisagem urbana se dá muito mais pelo uso da cidade do que pelo modo de ver o mundo, referindo-se então a uma relação de vivenciar o espaço em primeiro plano. Trata-se de construirmos nosso território a partir de um estrutura existente, não dada conforme nossas características e gostos. Da mesma forma que acontece em outras artes, como na pintura e na música - Koolhaas e Boeri abordam três questões tidas como fundamentais no modo de ver paisagístico: em primeiro momento temos a delimitação de um território de observação feito pelo próprio agente, partindo de casualidades; após, vem a superficialidade daquilo que se observa, tratando do que pode se ver e nos é acessível; por último, temos a incrementação de aspectos temporais, bem como de movimento no processo de experimentação espacial, tratando principalmente dos sentidos que nos são aguçados e estimulados no espaço.

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A imagem acima trata da Biblioteca Pública de Seattle, nos EUA. Projeto de Rem Koolhaas, a proposta busca integrar livros em formato físico com as novas tecnologias, aceitando a realidade atual e buscando integrá-la com as formas mais tradicionais da biblioteca

Por fim, é inevitável perceber que a cidade contemporânea está em intenso processo de transformação, nas mais diversas ordens, em aspectos positivos e negativos. E ela se apropria disso, mas também dos demais conflitos, como os sociais e os ambientais. Acompanhando esses processos está também a mudança - e o abandono - da visão ultrapassada da cidade, pois ao mesmo tempo em que é intrínseco do ser humano a memória, as lembranças e a saudade, é saudoso também a sua metamorfose no pensar, no ver, no sentir e no viver o espaço em que se insere.

Cidades: da paleta à câmera

Conforme Ignasi de Solà-Morales, os registros a cerca das experiências urbanas não foram observadas, analisadas e registradas através de processos físicos ao longo do tempo. Foram os movimentos artísticos - e filosóficos - os responsáveis por isso graças a documentação das transformações ocorridas. Nesse sentido, temos em movimentos artísticos, em específico no realismo, importantes fontes de informações, tendo em vista a busca pela representação mais aproximada da realidade da época - representando principalmente os ideais positivistas. O mesmo pode ser descrito em relação ao surgimento da fotografia, vindo a aperfeiçoar a técnica e a enriquecer os detalhes. Essa documentação abrange as questões arquitetônicas e urbanísticas, trazendo a conformação de ruas e vilarejos, por exemplo, através de diferentes perspectivas. Através dessa representação, são analisadas também as chamadas cidades-capital, que abandonam a ideia de espaços limitados e finitos, para espaços fluídos, contínuos e infinitos. Apesar dessas atribuições, há de ser considerado que é a partir disso que passa a prevalecer na cidade o interesse privado e as ações movidas à dinheiro, tendo como interesse central a obtenção de capital. Essa mudança a nível arquitetônico, urbanístico e econômico resulta na necessidade de integrar o novo ao antigo, gerando novas formas de organização para conformar e interligar as duas fases mencionadas. Nesse sentido, também estão envolvidas as questões que dizem respeito aos avanços tecnológicos e suas consequências: ao passo que trazem comodidades para o registro e a documentação da paisagem, também geram distanciamento daquilo que é representado. É possível então trazer argumentos favoráveis e desfavoráveis a isso, tendo em vista que com a pintura - apesar de todas as suas limitações e representação conforme as intenções do artista -, o homem estava mais próximo e atento aos detalhes da paisagem , ou seja, a vivenciava; com as novas tecnologias, isso não é mais necessário, pois com um clique e em milésimos de segundos - talvez! -, é possível obter muitas informações fieis ao contexto representado.

Urbanidades: cheio no vazio

Com o surgimento da fotografia a representação da metrópole ganhou uma aliada. As imagens de grandes centros urbanos - como Paris, Berlim e Nova Iorque - entram em nossa memória e imaginação através da fotografia, seja ela aérea, paisagística, arquitetônica, retratando pessoas ou veículos, mas sempre buscando levar a realidade construída e humana. No que diz respeito à representação em arquitetura, a fotografia tem gerado reações distintas, embora tenha papel indissociável em nosso entendimento de arquitetura moderna. Nesse sentido, a manipulação, o enquadramento, a composição e o detalhe influenciam diretamente em nossa percepção arquitetônica, valendo destacar que: A percepção que temos da arquitetura é uma percepção esteticamente reelaborada pelo olho e pela técnica fotográfica. A imagem da arquitetura é uma imagem mediatizada que, segundo os recursos da representação plana da fotografia, nos facilita o acesso e a compreensão do objeto. (Apud, Igor Fracalossi/Archdaily, 2012). O mesmo ocorre com a representação da cidade através da fotografia, pois ela dispensa o contato com o lugar, não permitindo o acumulo de experiências pessoais. É uma cidade rígida e dada, não construída: é uma mensagem concreta, estática, contrapondo o dinamismo da cidade. Partindo para outro foco, as imagens passam a retratar uma sensibilidade distinta que trabalha com a representação fotográfica dos vazios urbanos/espaços abandonados. Denominados terrain vague - francês de origem latina a germânica -, esses espaços são obsoletos, quebram o tecido urbano e constituem áreas inseguras e ociosas. E é isso que a fotografia busca retratar, mesmo que haja a crítica em relação a falta de vivência e percepção pessoal do local. Como resposta a essa representação do terrain vague, áreas que envolvem o planejamento territorial - como arquitetura e urbanismo e a geografia - buscam dar uma resposta/solução para a problemática e acabam criando soluções replicadas, reproduzidas, como se tudo fosse questão de "colonizar", de limitar, de ordenar, de tornar universal. Por fim, como alternativa, Ignasi propõe uma arquitetura voltado ao dualismo, a continuidade e a descontinuidade, trabalhando com vazios no sentido de serem respiros que não venham a aderir as vontades do mercado imobiliário e do acumulo de capital.