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RESENHA


O tipo de problema que é a cidade - Jane Jacobs


Jane Jacobs, nesse capítulo do livro Morte e Vida de Grandes Cidades, começa retratando o histórico do desenvolvimento da análise científica e a importância da mudança de metodologia para as análises dentro das ciências biológicas correlacionando com o momento que vive o urbanismo durante esse processo de evolução do pensamento. Para discorrer sobre o tema e desenvolver as justificativas e correlações ela traz conceitos existentes num Relatório Anual da Fundação Rockefeller Center escrito por Dr Warren Weaver. Onde subdivide-se três tipos de problemas (de simplicidade elementar, de complexidade desorganizada e de complexidade organizada) associados a diferentes metodologias para lidar com eles. A ciência progride num primeiro momento, durante três séculos (XII, XVI e XIX) de estudos, sob uma análise que relaciona os problemas baseados em duas variáveis – ou mais, porém não muitas, onde uma depende, é influenciada, maioritariamente pela outra ou por 3 ou 4 variáveis relevantes, desprezando-se os elementos de menores influências. Num segundo momento, início do século XX, estudiosos físicos e matemáticos entenderam que os problemas eram de natureza mais complexa e que seria interessante envolver mais variáveis. Tomando os problemas agora como de uma complexidade desorganizada, de um grande número de variáveis, desenvolveram técnicas eficazes sobre probabilidade e mecânica estatística. A análise de vários pontos relevantes, geradores da ação/problema, tornava a identificação de comportamentos comuns entre tais pontos, a incidência em que eles atingiam um mesmo resultado, caracterizando assim o problema. Embora fosse um avanço importante nos estudos das variáveis problemas, segundo Dr. Warren Weaver havia apenas aplicação de análise. Esse processo foi importante entre outras coisas para identificar que as ciências biológicas apresentavam na verdade problemas de complexidade organizada, onde Dr. Weaver, no Relatório Anual, afirma que o tratamento dado a análise dos problemas é bastante atrasado em 1932. Reconhece-se o problema de complexidade organizada como sendo resultado de variáveis inter-relacionadas. Onde o número de variáveis caracteriza a essência do problema e elas não são mais tratadas com aleatoriedade em relação umas às outras. A relação que elas têm entre si é de fundamental importância no processo de formação do problema de complexidade organizada. Com o avanço dos estudos a ideia era que após especialização das metodologias de estudo que ela pudesse ser aplicada a outras áreas como a das ciências sociais e comportamentais. O que causou avanço, nesse sentido, nas ciências biológicas foi entender que os dados precisavam ser compreendidos para além da leitura crua das probabilidades e estatísticas, não eram pontos irracionais e passíveis de mera fatalidade. Após o entendimento dos três tipos de problemas, Janes correlaciona os problemas de complexidade organizada com o comportamento das cidades. A cidade se comporta da mesma forma, onde uma alteração feita dentro dela altera todas as variáveis e relações que existiam, são completamente dependentes. Como um dos exemplos ela traz uma rua que não tem infraestrutura para uma boa funcionalidade, porém devido a ligação com um entorno movimentado e com bom funcionamento acaba se tornando uma via atraente e de uso frequente. Porém é importante atentar-se não somente as ruas como as variáveis, tem-se a funcionalidade da rua como resultado das várias variáveis, como o entorno, o tipo de uso que é dado a esse entorno, a possível boa iluminação, o acesso fácil de transporte público, a sensação de segurança espacial – todas essas variáveis se correlacionam e são importantes para que a via com insuficiência de infraestrutura seja atraente e tenha um bom funcionamento. No campo dos profissionais do planejamento urbano existiu uma evolução do pensamento de problema de simplicidade elementar para problema de complexidade desorganizada, onde os estudos e as bases utilizadas estavam sempre atrás dos avanços obtidos pelas ciências biológicas. No final do século XIX, a idealização das Cidades Jardins por Ebenezer Howard era resultado baseado num problema de duas variáveis principais – quantidade de moradias e número de empregos. Nas primeiras décadas do século XX, nos Estados Unidos, os planejadores urbanos começaram encarar os problemas das cidades como sendo de complexidade desorganizada, onde as medidas tomadas eram baseadas em análises estatísticas e aplicação de probabilidade matemática. A Ville Radieuse de Le Corbusier é exemplo da adequação dos problemas de duas variáveis à aplicação dos resultados estatísticos da cidade vista como complexidade desorganizada. Embora houvesse a consciência do novo tipo de problema, a análise sob duas variáveis era o foco. As medidas tomadas reduziram os cidadãos a números estatisticamente analisados e espaços planejados considerando a nova demanda da necessidade desse número analisado, sem considerar maiores condicionantes que envolviam a mostra. Com advento das técnicas de probabilidade e estatísticas começou-se a produção de cidades estatísticas e padronização pras ações que tivessem variáveis semelhantes, adotando uma espécie de metodologia geral para variadas situações. Sob essa análise os problemas tornavam de simplicidade elementar assim como os equipamentos e os demais funcionamentos das cidades, baseado no estudo de duas variáveis. Nesse sentido quanTo maior fosse a mostra analisada e a obtenção da solução, mais eficaz seria o planejamento da cidade e bom funcionamento desta. Janes retrata a realidade da época quando diz que apesar do planejamento urbano se atolar em equívocos, as ciências biológicas avançavam e traçavam caminhos para identificar o tipo de problema e como tratá-lo. Nesse momento as informações chegavam de maneira geral e tão logo pensadores urbanos começaram a abordar a cidade como um problema de complexidade organizada. O livre é uma manifestação disso, segundo Janes. Embora houvesse pessoas dispostas ao estudo sobre essa nova percepção de cidade, a ideia não era aceita nem no campo dos profissionais, “especialistas” envolvidos no planejamento urbano nem nas universidades. A autora trata a realidade da época como uma estagnação no campo dos estudos urbanos e em certos aspectos, como o aprimoramento de empreendimentos habitacionais um retrocesso se comparado a 1930, quando começou-se a pensar na cidade como um problema de complexidade desorganizada. Nos parágrafos que se seguem Jane fala da importância do olhar microscópico para os problemas gerados na cidade para que se tenha algum avanço no desenvolvimento urbano de maneira saudável. Onde é fundamental que os processos sejam analisados de acordo com os diversos fatores, com base em estudos exaustivos, sem tratar com indiferença a pluralidade dos espaços e das pessoas que fazem parte dele. Traz ao texto como se faz necessária a participação da população na construção do espaço urbano, principalmente quando estes espaços dialogam diretamente com suas vidas, particularidades, no caso de o planejamento de habitações é um exemplo. Fazendo outro paralelo de ações nocivas pelo processo de urbanização do espaço, Jane discorre sobre o perigo da sentimentalização da natureza e do antagonismo com qual se relaciona à cidade. Onde o homem precisa incluir espaços naturais que ainda resistem nos entornos das cidades a vida cotidiana, porém sem manifestar qualquer apreço pela ordem natural já existentes. Numa forma de padronizar espaços, cria-se padrões de uso não só no espaço dito “cidade”, como na apresentação desses biomas nos espaços urbanos. O sentimento de aproximação com a natureza faz parte da deficiência do homem enxerga-se e, por conseguinte enxergar a cidade como natureza. De forma coerente Jane traz no texto formas de como pensar a cidade sem menosprezar os espaços e características que já existem nela. Embora seja um livro de 1961, é interessante perceber as relações que são traçadas entre o processo que havia e o processo que continua sendo feito por planejadores quando são pensados os espaços urbanos. Não é difícil visualizar características atuais, como desapropriações, habitações construídas em lugares remotos e carentes de serviços e infraestrutura, sendo tratadas no texto, ao mesmo ponto que se faz preocupante que continuem pensando cidade como no início do século XX.