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De Projeto Paisagístico
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Carolyn Steel: Como os alimentos moldam as nossas cidades

A concepção e organização do espaço urbano está intimamente ligada à agricultura. Tendo o ser humano como demanda primordial à sobrevivência alimentar-se diariamente, tal relação não poderia acontecer de forma diferente. Os primeiros assentamentos, por volta de 10.000 anos atrás, surgiram em locais onde foi possível desenvolver um sistema de produção agrícola que permitiu a permanência por tempo prolongado de pessoas alí. A agricultura e a colheita eram profundamente apreciadas e celebradas, estavam no centro da organização do espaço, tempo e sociedade.

À medida em que as cidades iam crescendo se tornava necessária toda uma logística para a chegada do alimento e seus caminhos pelas veias da cidade. Como nessa época ainda não existiam meios de transporte muito rápidos e nem tecnologias para conservar a maioria dos alimentos, eles não podiam vir de muito longe, precisavam ser produzidos nas redondezas e as cidades precisavam de uma configuração que facilitasse esse processo. Carolyn Steen cita o caso de Roma, cidade muito populosa desde os primórdios, seu alimento vinha por mar através de embarcações pois as estradas ainda eram muito precárias. A busca pelo alimento definiu guerras contra regiões como o Egito e Cartago, só para ter acesso às reservas de grãos.

Ao analisarmos a cartografia de Londres, podemos também observar através dos nomes das ruas, toda essa lógica do caminho do alimento. No entanto elas ainda se inseriam no conceito de cidades orgânicas, pois ainda era respeitado o tempo dos alimentos e também dos animais, que chegavam caminhando até elas.As primeiras mudanças ocorreram com a chegada das ferrovias, que agora traziam animais abatidos e alimentos de vários lugares. As cidades que antes tinham seu crescimento limitado pela obtenção do alimento, agora estavam livres para crescerem, pois, o alimento vinha até elas onde quer que fosse. A partir daí as novas descobertas tecnológicas e a evolução dos meios de transporte intensificaram o distanciamento do homem e da natureza, até os dias de hoje.

Atualmente boa parte da população mundial vive nas grandes cidades. Considerando que somos animais, possuímos dentre muitas, uma importante característica em comum com o ser humano de 10 mil anos atrás: somos natureza e precisamos dela. Dessa forma, caímos num impasse e numa contradição onde o grande desenvolvimento da tecnologia no qual estamos inseridos nestes tempos, provocou também o distanciamento cada vez maior entre o ser humano e a natureza. A facilidade com que encontramos o alimento processado e embalado em qualquer quantidade nas prateleiras do supermercado nos exclui de participar de todo o seu processo desde a germinação que está intimamente ligado ao nosso próprio processo como seres também pertencentes à natureza. Processo tal que também se transformou longe dos nossos olhos, gerando paisagens “extraordinárias” que também fogem ao natural, como os grandes campos de soja existentes no Brasil.

Perdemos a referência tanto visual espacial como sensorial do espaço de natureza no qual estamos inseridos, até mesmo a escala é diferente. Sem esse elo perdemos também a referência do tempo real das coisas, em um aspecto mais orgânico.

Carolyn Steel defende que as grandes cidades precisam mesclar as duas paisagens: urbanas e natural, modificando o conceito de cidade como um grande e complexo aglomerado improdutivo no sentido de produção agrícola. Tal mesclagem se dá através da prática da agricultura urbana.


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Agricultura Urbana: O que Cuba pode nos ensinar

Em 1989, mais de 57% dos alimentos consumidos em Cuba eram importados da União Soviética e com o seu colapso, cuba passou a ter que produzir todo o seu alimento em seu próprio território.

Com o aumento dos centros urbanos, o numero de pessoas que não cultivam seu próprio alimento também aumenta. Para isso o alimento precisa ser produzido nas redondezas e transportado para as cidades, o que aumenta consideravelmente a nossa dependência por combustíveis fósseis.

O exemplo de Cuba nos trás alguns esclarecimentos para a seguinte pergunta: Como se veriam nossas cidades se começássemos a instalar a produção/distribuição de alimento como o principal foco de projeto urbano? O que seria necessário para converter isso em realidade?

Bom, com a interrupção das importações vindas da União Soviética, instaurou-se em cuba uma escassês de alimentos. A solução imediata tida pelos cubanos foi se virar, cada um por si. Passaram a plantar alimentos em qualquer espaço disponível, como sacadas, terraços, pátios e terrenos baldios. Em 2 anos, todos os bairros de Havana possuíam algum tipo de jardim e granjas. O governo acompanhou o movimento criando o Departamento de Agricultura Urbana com algumas ações chaves:

- Adaptou a normativa incorporando o planejamento do usufruto, tornando não somente legal, mas também livre para adaptar terrenos sem uso e públicos a disposição de potencial território produtivo.

- Treinou uma rede de agentes de extensão, membros da comunidade que monitoram, educam e incentivam a construir hortas comunitárias nos bairros;

- Criou “seed houses” (casas de semente) para prover recursos/informação;

- Estabeleceu uma infra-estrutura de venda direta de mercados agrícolas para tornar estas hortas rentáveis.


Em 1998, Havana já contava com mais de 8000 hortas oficialmente reconhecidas, desde lotes de manejo individual, até grandes propriedades de gestão estatal. Toda a produção é orgânica e cobre em torno de 50% da demanda do país.

O exemplo de Cuba nos mostra como a necessidade pode gerar a energia suficiente para mudar uma grande lógica pré-instalada, trazendo de volta o alimento como fator determinante na configuração da cidade. Atualmente Cuba voltou a importar alimentos e precisou revitalizar seu sistema agrícola que estava ineficiente e burocrático.

Embora não vivemos uma realidade tão extrema como foi em Cuba, também sentimos uma necessidade eminente de mudar alguns paradigmas da nossas sociedade. A crise econômica atual torna necessária o reajuste urgente do sistema de produção e distribuição alimentar obsoletos, ineficientes e insustentáveis. Além disso, estamos passando por um período de conscientização maior com relação ao que comemos pois presenciamos as consequências de uma alimentação inadequada e artificial.

Precisamos diminuir a distancia tanto física quanto conceitual entre nós, e o que comemos.

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