Usuário:Tania Werneck

De Projeto Paisagístico
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RESENHA: TERRAIN VAGUE, POR IGANISI SOLÀ-MORALES

Em seu texto, o autor traça um paralelo entre a importância da fotografia em nossa leitura e experiência do ambiente urbano, tanto da arquitetura quanto da cidade em si, especialmente do espaços que denomina “terrain vague”.

Primeiramente, ele fala sobre o histórico da fotografia como representação da grande cidade - os dois surgem praticamente juntos. No tocante à arquitetura, a fotografia teve papel importantíssimo na Arquitetura Moderna. A técnica fotográfica agiu - e age - como mediadora, facilitando e moldando a nossa compreensão do objeto, e o mesmo acontece na cidade.

O nosso olhar e imaginação também são amplamente construídos pela fotografia - através delas é possível captarmos indícios, certos impulsos físicos que atuam na construção de um imaginário que estabelecemos em nossas vivências na cidade - que, através deste processo, pode ser múltipla.

Após a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente nos anos 70, surgiu uma sensibilidade distinta em relação ao ambiente urbano por parte dos fotógrafos - os espaços vazios, abandonados, onde todos os acontecimentos que já se sucederam ali parecem ecoar. Esses espaços são os “terrain vague” a que o autor se refere, que “parecem se converter em fascinantes pontos de atenção, nos indícios mais solventes para poder se referir à cidade, para indicar com imagens o que as cidades são, a experiência que temos delas”.

O autor se atenta à origem do termo que usa para designar esses espaços. O termo “terrain”, em francês, é em primeiro lugar uma extensão de solo de limites precisos, edificável, na cidade, também se referindo a extensões maiores, talvez menos precisas, ligada à ideia física de uma porção de terra potencialmente aproveitável, mas já com algum tipo de definição em sua propriedade a qual somos alheios. O termo “vague”, é usado para caracterizar a relação entre a ausência de uso, de atividade e o sentido de liberdade, de expectativa. Vazio, portanto, como ausência, mas também como promessa, como encontro, como espaço do possível, expectativa. São lugares aparentemente esquecidos, onde a memória do passado parece predominar sobre o presente.

Do ponto de vista econômico, as áreas industriais, estações de trem, portos, áreas residenciais inseguras, lugares contaminados tem se convertido nessas “ilhas interiores” esvaziadas de atividade, permanecendo fora da dinâmica urbana - são lugares estranhos ao sistema urbano.

A técnica fotográfica, ao se voltar para esses “terrain vague”, o faz em busca da imaginação romântica, da sensibilidade contemporânea que se nutre de lembranças e expectativas, dentro de um ambiente de estranheza. O indivíduo contemporâneo, habitante da grande metrópole, se vê muitas vezes como estrangeiro em sua própria pátria, sente os espaços não dominados pela arquitetura ordenada como reflexo da sua própria inseguridade, sua posição externa ao sistema urbano. “A presença do poder convida a escapar de sua presença totalizadora; a seguridade chama por uma vida de risco; o conforto sedentário chama por nomadismo desprotegido; a ordem urbana chama pela indefinição do terrain vague.O característico do indivíduo de nosso tempo é a angústia ante aquilo que o salva da angústia, a necessidade de assimilar a negatividade cuja eliminação parece que socialmente constitui o objetivo da atividade política”.

A fotografia desses espaços se tornam indícios territoriais representativos dessa mesma estranheza, refletindo a problemática da vida social contemporânea. A reação da arte é de preservar esses espaços marginais, cheios de expectativa, imprecisão - ao contrário da homogeneidade esmagadora e liberdade controlada da grande cidade.

Neste ponto, o autor questiona o papel da arquitetura diante desses espaços vazios. Ele caracteriza como papel tradicional da arquitetura o de ordenar, pôr limites, forma, trazer para espaços “estranhos” os elementos de identidade para torná-lo reconhecível, universal. Desse modo, a arquitetura e o desenho urbano somente poderiam introduzir transformações radicais, impondo regras e racionalização à magia das possibilidades dos terrain vague.

O que fica, então, é o questionamento de como a arquitetura e o planejamento urbano podem atuar nesses ambientes de forma não agressiva, sem corromper as relações do imaginário das vivências humanas. O autor, então, traça como sua resposta a atenção à continuidade, aos fluxos, ritmos, pulsação do próprio lugar. Nenhuma intenção de exemplificar a nova grande cidade. “Uma silenciosa paisagem artificial tocando o tempo histórico da cidade, mas sem anulá-lo e tampouco limitá-lo”. .