Usuário:Vitor Mattos

De Projeto Paisagístico
Ir para: navegação, pesquisa

Um dos maiores desafios da disciplina do Paisagismo é a especificidade das situações com as quais o profissional tem que lidar. Não existe uma fórmula específica, uma regra pré-determinada que se aplica a todos os casos. Cabe lembrar que a compreensão do espaço e da paisagem partem de investigações pluridisciplinares, e cabe ao arquiteto-paisagista incorporar uma complexidade de questões, que darão forma a soluções espaciais específicas, cujo sucesso pode ser comensurado através da apropriação ou não do público. Um aspecto interessante no texto de Cecilia P. Herzog é a compreensão do projeto paisagístico enquanto infraestrutura urbana que pode ser responsável por possibilitar a convivência harmônica de diferentes espécies de fauna e flora, a partir de táticas de ecogênese, recuperação de nascentes e manutenção de matas ciliares, retenção de água de chuva e incremento de área urbana permeável como tática de manejo de águas, da fitosociologia como ferramenta para manutenção natural de ecossistemas, sem perder a qualidade espacial e ambiência para atividades humanas. Um exemplo de projeto paisagístico que considero memorável é o parque Hampstead Heath em Londres, cujo partido paisagístico, ao contrário dos parque reais ingleses (como o famoso Hyde Park) segue a estética ecológica, isto é, a vegetação não é domada, o parque é constituído a partir de trechos descampados, trechos mais densos, permeados por colinas e lagos abertos para banhistas. Desta forma, o parque serve como um importante componente no sistema verde de Londres, funcionando como um dos principais refúgios de verão dos habitantes da cidade pela sua diversidade programática e sedução do banho nos lagos nos dias mais quentes. No entanto, o sucesso de apropriação do Hampsted Heath em Londres deve-se, também, à diversidade de usos no tecido urbano que o circunda e a possibilidade de acesso fácil via transporte público, o que nos ajuda a compreender o parque enquanto parte constituinte da cidade, que é, por natureza, complexa. É preciso parar de fazer jardins "cosméticos" e priorizar o interesse coletivo no que diz respeito aos necessários "vazios urbanos", que apontam a possibilidade da fuga do caos ao qual os habitantes da cidade estão submetidos. De acordo com Rosa Kliass, o projeto paisagístico se encarrega do "vazio" e o projeto de arquitetura de encarrega do "cheio", ou seja os edifícios. Desta maneira, o projeto paisagístico se envolve na interseção entre os edifícios e a cidade, podendo ser entendidos como projetos de interesse coletivo. Neste aspecto, é fundamental incorporar a consulta pública no momento de elaboração do projeto a fim de incorporar uma multiplicidade de variáveis que deve ser fornecida pelos próprios usuários, e não como ferramenta de validação (ou não) de projetos pré-concebidos sem a possibilidade de participação, tal qual todo projeto de caráter espacial e de interesse público. Neste sentido, vale a pena comentar sobre o processo decisório acerca do Tempelhofer Feld em Berlim, que consiste em um aeroporto desativado que serviu ao abastecimento da Alemanha Ocidental no período da guerra fria. Aberto ao público em 2010, com uma área de 300 hectares, é o maior parque de Berlim em termos de área, e um dos mais frequentados, devido a sua singularidade, como aviões desativados no terreno descampado, a antiga pista de decolagem que serve como imensa pista de corrida, bicicleta, skate, etc., hortas comunitárias, e uma diversidade de usos. Em 2014, houve a proposta de transformar grande parte da área em área disponível para construção de moradias. No entanto, os berlinenses, em consulta pública, optaram pela permanência do parque como está e pela implantação de uma série de medidas que dificultam a apropriação deste espaço de uso coletivo pelo mercado imobiliário. Este é um exemplo muito interessante de compreensão do significado cultural dos espaços vazios para uso público, e das transformações na paisagem que a destinação de novas áreas para uso residencial podem causar, além da memória cultural que a permanência da área enquanto parque irá preservar. Um outro exemplo interessante é o da Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, que na verdade corresponde a uma mata culturalizada e recuperada após um longo período de ocupação humana e destinação de encostas para a monocultura, o que acabou gerando problemas de retenção de água nas nascentes e um consequente problema de abastecimento para a cidade do Rio de Janeiro. O projeto paisagístico optou por reflorestar a área seguindo princípios da fitosociologia, além da preservação de elementos da ocupação humana como possibilidade de fruição pitoresca através do parque, que funciona como Infraestrutura verde para o município do Rio de Janeiro.