Avenida Antônio Carlos - intervenção

De Projeto Paisagístico
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A avenida Antônio Carlos

Mapa da Avenida Presidente Antônio Carlos

A avenida Presidente Antonio Carlos, situada no município de Belo Horizonte, Minas Gerais, é o principal eixo de ligação entre o centro e a Pampulha. Sua abertura data dos anos 40, durante a prefeitura de Juscelino Kubitschek, começando no bairro da Lagoinha, percorrendo 8 km do território, atravessando bairros residenciais como Cachoeirinha, Aparecida, Bom Jesus e São Francisco, até chegar à Barragem da Pampulha, dando acesso à região turística. Atualmente a via ainda é trajeto para o Campus da UFMG que estabelece uma grande centralidade na região, e é acesso ao estádio do Mineirão.

Mais recentemente, a história da Avenida perpassa por inúmeras intervenções tais como a duplicação da avenida, iniciada em 2005, passando de 25m de largura para 50m de largura, visando se adequar às novas realidades do tráfico da região metropolitana. Foram, ainda, construídos diversos viadutos para ligar os bairros do entorno à via.

Avenida Presidente Antônio Carlos

Em 2011, foram iniciadas as obras para o MOVE, transporte público que utiliza o sistema de BRT, afim de implementar as vias exclusivas das quais o sistema necessita.

Após tantas intervenções, alguns espaços residuais ociosos se formaram ao longo da avenida, se tornando apenas vazios gramados sem uso ou qualquer tipo de apropriação pelos moradores do entorno. As travessias e calçamentos também são pouco seguras e convidativas ao pedestres.

No ano de 2013, surge o projeto denominado “NOVA BH” que consiste em uma Operação Urbana Consorciada (OUC) a ser implantada nos corredores da Av Antonio Carlos/Pedro I, e Av Andradas, Tereza Cristina e Via Expressa. As intervenções previstas modificariam 7% do território municipal, afetariam 58 bairros e 170 mil moradores. Após denuncias de irregularidades no processo da NOVA BH, a prefeitura lança, em 2014, a Operação Urbana Consorciada Anônio Carlos + Leste- Oeste), numa tentativa de incluir a participação popular no desenvolvimento.

A presença de espaços residuais e vazios e a falta de conforto e segurança para as pessoas se relacionam intimamente e suscitam uma discussão de intervenção e revitalização da área. Pensando nos pedestres, na qualificação dos espaços, na quebra da barreira imposta pelo sistema viário (trânsito intenso e rápido) e na promoção da apropriação dos espaços da cidade pelas pessoas, surge a proposta de intervenção na Av Presidente Antonio Carlos.

Pedestre e Escala Humana

Há tempo a escala humana foi extremamente negligenciada no planejamento urbano. Desde 1960 e o urbanismo modernista de Brasilia o planejamento visava uma cidade tecnocrática, observada da vista área e que pouco se importava com o térreo, com o nível da rua e dos olhos, com a qualidade de vida ou com as pessoas.

Nesse contexto o carro é um grande inimigo. Segundo Jan Gehl "O carro espreme a vida urbana para fora do espaço público", num planejamento que prioriza o carro pouco se entende o papel da cidade na qualidade de vida das pessoas. Houve uma inversão da lógica de projeto e ao invés de se pensar a cidade pelas pessoas, depois os espaços e depois os edifícios, a lógica agora é invertida, e os edifícios são impostos às pessoas.

Com um sistema de ciclovias e transporte publico eficiente as cidades poderiam reduzir o transporte privado e consequentemente reduzir o trânsito. O nível da rua é essencialmente importante para a qualidade de vida urbana. Pensando nisso, Jan Gehl desenvolveu 12 pontos que seriam necessários para a criação de um espaço publico de qualidade.

Pedestre e a Escala Humana


1. Proteção contra o Tráfego

2. Segurança nos espaços públicos

3. Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis

4. Espaços para caminhar

5. Espaços de permanência

6. Ter onde se sentar

7. Possibilidade de observar

8. Oportunidade de conversar

9. Locais para se exercitar

10. Escala Humana

11. Possibilidade de aproveitar o clima

12. Boa experiência sensorial

Ponto de partida: Campus da UFMG

Para iniciar a intervenção proposta, tomamos como ponto de partida o Campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) devido a alguns motivos, tais como sua inserção urbana, seu não diálogo com o contexto no qual se insere, a presença de grupos capacitados para promoverem atividades com a comunidade acerca das hortas urbanas, dentre outros.

Entende-se que o conceito de campi (detalhado abaixo), promove um afastamento entre comunidade acadêmica e sociedade em geral - pelo próprio desenho e concepção intrínsecos, que estabelecem um campus fechado, "autosuficiente", desintegrado ao entorno imediato e não conectado com as carências da população.

Buscando outros formatos que possam se adequar à proposta de "costurar" o campus ao entorno no qual se insere, tomamos por exemplo a iniciativa "Domingo no Campus". De proposição da Pro reitoria de Extensão da Universidade, o evento, primeiramente realizado no Festival de Inverno, se alongou para um acontecer mensalmente: com atividades de lazer, cultura, esporte e afins, convidam a comunidade do entorno para uma inserção no campus e para usufruirem de parte de sua infraestrutura.



O conceito de Campi

“apoiado em uma ideologia antiurbana, o campus universitário emerge a partir do college do período colonial, como lócus segregado da cidade, ambiente no qual o afastamento da turbulência citadina permitiria o desenvolvimento sem peia da ciência e do conhecimento” (ANDRADE, 2009, p. 01)

"O câmpus supõe um território fechado, com administração independente e que abriga espaços de ensino, aprendizagem e pesquisa. Reúne alguns poucos serviços fundamentais, como refeitórios, lanchonetes, xerox, papelaria, livraria, bancos e praticamente só isso.” (PINTO; BUFFA, 2009, P. 47)

A concepção de instalar as universidades longe das cidades surge nos Estados Unidos, no século XVIII, estabelecendo um lugar onde os espaços acadêmicos eram aliados a refeitórios, dormitórios e espaços recreativos. As universidades norte-americanas, neste processo de criação e concepção dos campi, rompem com a tradição europeia - de instalar os edificios no meio urbano - e concebem uma romântica noção de escola na natureza, afastada da cidade. O college torna-se então uma cidade em miniatura, um experimento de urbanismo. (Turner, 1984)

Segundo Ester Buffa e Gilson Almeida Pinto “o campus deveria ser, como de fato foi, uma pequena cidade: possuir equipamentos, serviços, e todas as facilidades possíveis que uma cidade poderia oferecer. (...) O território para ensino e aprendizado ampliava-se do prédio para o câmpus, uma grande área projetada, fechada com regras, costumes e leis próprias.”

A proposta de câmpus universitário foi aceita e difundida pelo mundo passando a representar o local, por excelência, do trabalho acadêmico e universitário. Nos EUA, os campi tornaram-se verdadeiras cidades especiais, cercadas, com o decorrer do tempo, pela malha urbana das cidades próximas existentes, mas continuando fechadas, com seu território definido e limitado e com o privilégio de estabelecer, dentro de certos limites, suas normas regras e padrões. (PINTO;BUFFA, 2009 P.41)

O Campus da UFMG

Mapa Campus UFMG - disponível em: www.ufmg.br

A Universidade de Minas Gerais foi federalizada em 1949, tornando-se a Universidade Federal de Minas Gerais. A esta altura já havia incorporado como patrimônio uma grande área na região da Pampulha. De início, após a federalização e a criação de outros cursos, a opção de ocupação manteve-se na permanência nas áreas centrais e em alguns bairros. Atualmente, A UFMG tem sua estrutura acadêmica situada em três áreas da cidade de Belo Horizonte: o Campus saúde, no centro, as Unidades isoladas, também no centro da cidade (algumas com perspectiva de mudança para o campus), e o campus da Pampulha - nosso objeto de estudo.

O projeto do campus, à cargo de engenheiros e arquitetos da Universidade à época, apresenta um zoneamento estabelecido a partir de institutos e departamentos. Na área mais central, encontra-se a Reitoria, Biblioteca Central e uma praça de serviços.


Agricultura Urbana na UFMG

Existe atualmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte uma série de movimentos e organizações cujo objetivo é trazer para a realidade urbana - muitas vezes árida e insalubre - as vantagens da agricultura. No contexto da Av. Antônio Carlos podem ser mencionados os grupos de pesquisa e ação existentes na UFMG, como os grupos AUÊ e Aroeira.

Áreas Vazias

O primeiro deles reúne pesquisadores/as, estudantes de graduação e de pós-graduação e instituições de pesquisa, aproximando a temática da agricultura urbana a diferentes campos de investigação em curso na universidade, dentre eles: planejamento urbano, agroecologia, espaço público cotidiano, questão ambiental urbana, conflitos socioambientais, questão agrária, organização popular, segurança alimentar, economia popular e solidária.

O grupo Aroeira, por sua vez, nasceu em 2006 no ICB, por iniciativa dos estudantes. O Grupo escolheu a Agricultura Urbana como eixo norteador das ações de extensão e pesquisas. O Grupo é aberto, funciona por autogestão e se mantém como um grupo autônomo.

Além desses grupos, a RMBH conta ainda com os grupos Rede, Terra Viva e AMAU, que também tem sido bastante ativos nessas discussões. Esse movimento voltado para a Agricultura Urbana - especialmente aqueles já existentes na UFMG e, portanto, próximos à Avenida, podem ser de grande contribuição para a promoção de cursos e workshops, produção de cartilhas, além de facilitarem um processo continuado de ação.


Obras Análogas

Internationale Stadtteilgärten Hannover

Primeira horta de Sahlkamp

O Projeto consiste em três hortas urbanas, onde as famílias que vivem no bairro de Sahlkamp, em Hannover, podem plantar verduras e flores e trocar idéias. Sua intenção é a de ser um abrigo para os imigrantes e alemães, onde todos se sintam seguros e possam semear, cultivar e colher algo comum. O plano é plantar várias hortas comunitárias em diferentes bairros com alta proporção de imigração na cidade.

O primeiro jardim foi criado no bairro Sahlkamp, onde vivem várias centenas de famílias de 60 países diferentes. A violência, o desemprego juvenil e o uso de drogas foram durante décadas os principais problemas no distrito, onde se concentra uma variedade de edifícios de apartamentos. Os adultos se viam sem perspectiva profissional e sem situação segura de moradia, por muitas vezes serem refugiados e viverem em situação de pobreza. Eles participavam pouco na vida social, por insegurança e falta de habilidade no idioma alemão.

Em uma área central do bairro, sobre a cobertura da garagem de um dos edifícios, foi criada a primeira horta. Atualmente, famílias de diversos países (Iraque, Turquia, Afeganistão, Alemanha, Tunísia, etc.) adquiriram sua área de horta a partir do pagamento de taxas anuais simbólicas. Os moradores que não puderem pagar essa taxa, podem fazê-lo através da prestação de serviços. Essa primeira experiência contribuiu para que fossem construídos laços entre a vizinhança, que às vezes se reúne no local à noite para se sentar à mesa instalada na área, conversar sobre o dia e compartilhar os produtos da horta e as práticas de plantio.

Além disso, atualmente são oferecidos cursos gratuitos de jardinagem nos jardins e foram construídos espaços de encontro e de culinária. A rede que teve princípio nesse projeto hoje mantem no bairro diversas árvores de maçã, das quais produz garrafas de sucos que distribui entre amigos. Os sucos não são comercializados, porque, de acordo com os moradores, o produto deve ser gratuitamente distribuído para moradores de demais bairros da cidade em situação semelhante, para estimulá-los à prática das hortas.

Outra prática iniciada a partir desse primeiro jardim foi o maior cuidado com o próprio bairro, cujo ponto inicial foi um muro degradado onde os moradores fizeram um trabalho de mosaico. Esse processo logo se estendeu para as praças e demais espaços públicos. Foi feita também uma pesquisa entre os moradores a respeito das árvores típicas de seus países de origem, as quais - de acordo com as possibilidades do clima e do solo - foram plantadas pelas ruas do bairro.

Campus UFJF - Juiz de Fora

Apropriação para lazer no campus UFJF
Apropriação para lazer no campus UFJF
Apropriação para lazer no campus UFJF

O campus da Universidade Federal de Juiz de Fora, datado da década de 1970, foi implantado em uma região da cidade que, posteriormente (e também como consequencia de sua implantação) tornou-se vetor de crescimento e desenvolvimento de Juiz de Fora. Atualmente, o campus se encontra entre os bairros de São Mateus, Cascatinha e São Pedro. Além de contribuir para a economia da cidade, no sentido de trazer alunos de diversas localidades dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, contribui para a própria dinâmica urbana do entorno de sua implantação, tornando-de uma importante conexão entre esses sítios da cidade. Diariamente, pode-se perceber um intenso fluxo de carros que utilizam o campus como atalho do trajeto entre bairros, além de intenso fluxo de pessoas que fazem uso do campus como um parque urbano, devido à carência de tal equipamento na cidade. As implicações desta apropriação, e até mesmo da incorporação das vias locais do campus pela dinâmica urbana do entorno, geram inúmeras questões a serem debatidas e solucionadas pela cidade. Com este exemplo, pretende-se suscitar a discussão da inserção dos campi em zonas urbanas, bem como o seu uso e apropriação pela sociedade em geral, e não apenas pela comunidade acadêmica, propondo novas formas de usos, em consonância com os objetivos de ambas esferas (comunidade acadêmica e sociedade civil), podendo atuar como um elo entre as mesmas.