Pedro Ivo

De Projeto Paisagístico
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Terrain Vague - Ignasi de Solà-Morales

Existem amplas discussões na atualidade sobre o que de fato representa um vazio urbano. Apesar de todas as discordâncias que surgem a respeito do tema, é praticamente unanime a percepção de que o velho conceito de que vazios são unicamente os lotes vagos é ultrapassado e já não nos serve mais. Ignasi de Solà-Morales em seu texto "Terrain Vague" defende a idéia de que vazio é todo espaço dentro do perímetro urbano que, por algum motivo, não se insere na lógica de produção da cidade.

Portanto, seriam vazios todos aqueles espaços em que a sua utilidade e importância para a cidade de alguma maneira se esvaíram (ou nunca existiram). São espaços como áreas industriais abandonadas, edifícios desocupados, espaços públicos subutilizados. Esses não-lugares são sempre caracterizados pelo estranhamento em relação a seu entorno, uma vez que eles não se inserem nem dialogam com seu contexto.

Para Ignasi, a fotografia tem um papel essencial na representação desses vazios, uma vez que ela é capaz de captar aspectos humanos da cidade que não conseguem ser expressados na racionalidade dos desenhos técnicos. Segundo ele, os vazios são oriundos mais das dinâmicas e forças da cidade do que uma questão de desenho arquitetônico propriamente dito (no entanto, este não é totalmente desprovido de influência). Dessa forma, a fotografia é mais apta a captar essas nuances da vida real, vida essa que arquitetos e planejadores urbanos tendem a se afastar quando entram no mundo platônico e racional que só existe no campo dos desenhos e das idéias.

Agricultura Urbana

A questão da sustentabilidade das grandes cidades convive com um grande dilema cujas soluções ainda se encontram num nível muito incipiente. Com sua tendência de crescimento centro-radial, conurbação e valorização da terra, as metrópoles inclinam-se sempre ao afastamento e a inviabilização da produção rural. Essa dualidade campo/cidade é natural, nos acompanha desde os primórdios da vida humana e por si só não é algo negativo a ser combatido.

No entanto, quando pensamos em um espaço extremamente adensado e extenso em termos de área, como são as metrópoles da contemporaneidade, essa questão começa a se tornar um problema. A cidade grande, na forma em que ela se organiza não é capaz de ser autossustentável em termos de produção de alimentos. Por outro lado, a mancha urbana que ela ocupa e promove em seu entorno inviabiliza a existência de produções agrícolas de grandes proporções na sua proximidade. Isso resulta em gastos absolutamente expressivos no transporte desses alimentos, sem contar com toda a infra-estrutura que isso demanda e o impacto ao meio ambiente.

O que resulta disso é algo que inicialmente parece contrapor toda a lógica das cidades grandes que temos pré-concebida: cada vez mais a agricultura urbana se apresenta como uma solução viável e, quem sabe em um futuro próximo, indispensável. Quando os gastos com transporte de alimentos superam o elevado valor da terra nas cidades a produção agrícola na cidade passa a ser a opção mais funcional, por uma lógica simples de mercado.

A questão da agricultura urbana é muitas vezes vista como uma ideia progressista e utópica, inclusive sendo às vezes associada a certo tipo de insurgência. Ver o tema sobre esse prisma é algo absolutamente retrograda e denota uma visão de mundo bastante limitada. A agricultura urbana estará cada vez mais presente em nossas vidas e eu digo ainda mais: essa presença pode até vir com o intuito de melhoria da qualidade de vida nos centros urbanos, transvestida de causas ambientais, cidadania e etc; no entanto, como tudo nesse mundo ela só vai acontecer efetivamente por motivos de mercado, meramente capitalistas.

Não quero com isso entrar em um juízo de valores, nem dizer que impactos isso pode ter a respeito da produção da agricultura urbana, muito menos classificá-la como "benéfica" ou "maléfica" para as metrópoles. A grande questão é: para o bem ou para o mal, a agricultura urbana tende a ganhar espaço e é só uma questão de tempo até que ela se torne corriqueira.