Resenha - Tema B - por Thaíssa Cysne

De Projeto Paisagístico
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As representações das metrópoles entram na nossa memória e na nossa imaginação através de fotografias paisagísticas, aéreas, dos edifícios, das pessoas que vivem nas grandes cidades. A fotografia constitui um dos principais veículos através dos quais recebemos informações que procuram nos levar a conhecer a moderna metrópole. Em seu desenvolvimento técnico e estético, a fotografia tem gerado distintas sensibilidades em relação à representação arquitetônica. As manipulações dos objetos captados pela câmera fotográfica têm uma incidência decisiva na nossa percepção das obras de arquitetura. A percepção que temos da arquitetura é uma percepção esteticamente reelaborada pelo olho e pela técnica fotográfica. A imagem plana e representativa da arquitetura é uma imagem mediatizada que, nos facilita o acesso e a compreensão do objeto. Nossa mirada tem sido construída e nossa imaginação, prefigurada através da fotografia.

Nesse contexto, São os lugares urbanos os que parecem se converter em fascinantes pontos de atenção para indicar com as imagens o que as cidades são, a experiência que temos dela. Como em todo produto estético, a fotografia comunica não só as percepções que desses espaços podemos acumular, mas também as afeições e aquelas experiências que convertem o veículo das imagens fotográficas no meio através do qual estabelecemos com esses lugares, vistos ou imaginados, um juízo de valor.

A fotografia mais recente tem captado a condição interna à cidade desses espaços, mas ao mesmo tempo externa à sua condição cotidiana. São lugares aparentemente esquecidos, onde parece predominar a memória do passado sobre o presente. São lugares obsoletos nos que somente certos valores residuais parecem se manter, apesar de sua completa desafeição da atividade da cidade. São, em definitiva, lugares externos, estranhos, que ficam foram dos circuitos, das estruturas produtivas. Desde um ponto de vista econômico, áreas industriais, estações de trem, portos, áreas residenciais inseguras, lugares contaminados, tem se convertido em áreas das que se pode dizer que a cidade já não se encontra ali. São carentes de uma incorporação eficaz, são interiores esvaziadas de atividade, são restos que permanecem fora da dinâmica urbana. Convertem-se em áreas simplesmente estranhas ao sistema urbano, exteriores mentais no interior físico da cidade que aparecem como contra-imagem da mesma, tanto no sentido de sua crítica como no sentido de sua possível alternativa.

A imaginação romântica que sobrevive em nossa sensibilidade contemporânea se nutre de lembranças e expectativas. Estrangeiros em nossa própria pátria, estranhos em nossa cidade, o habitante da metrópole sente os espaços não dominados pela arquitetura como reflexo da sua própria inseguridade, do seu vago deambular por espaços sem limites que, em sua posição externa ao sistema urbano, de poder, de atividade, constituem por sua vez uma expressão física do seu temor e inseguridade, mas também uma expectativa do outro, do alternativo, do utópico, do porvir. Pode-se nomear a situação presente como “a época da estranheza ante o mundo”. O que caracterizaria a época da sociedade do tempo livre seria a fugaz relação entre o sujeito e seu mundo, condicionada pela velocidade com a que a mudança se produz.

As mudanças na realidade, na ciência, nos costumes e na experiência produziriam inevitavelmente uma condição de estranheza. O desamparo do sujeito, a perda de consistência dos princípios tem uma correspondência ao mesmo tempo ética e estética. Há a análise em torno a um sujeito pós-histórico que é, fundamentalmente, o sujeito da grande cidade. Um sujeito que vive permanentemente no paradoxo de construir sua experiência desde a negatividade. A presença do poder convida a escapar de sua presença totalizadora; a seguridade chama por uma vida de risco; o conforto sedentário chama por nomadismo desprotegido. O característico do indivíduo de nosso tempo é a angústia ante aquilo que o salva da angústia, a necessidade de assimilar a negatividade cuja eliminação parece que socialmente constitui o objetivo da atividade política.

Ao se enfrentar ao mesmo tempo com a percepção das mensagens que nos chegam através de nossa abertura ao mundo e aos comportamentos nessa situação, aponta-se a superação da divisão entre estética e ética, entre interpretação do mundo e ação sobre o mundo. “A época da estranheza ante o mundo” retoma o tema do sinistro, assimilado por aqueles que têm buscado encontrar na experiência individual da deslocação e do deslocamento o ponto de partida para a construção de uma política. Há a problemática do estrangeirismo na vida pública das sociedades avançadas, que pode acaba se convertendo, por uma parte, num discurso filosófico sobre o significado do outro, daquele que radicalmente me é estranho.

A estranheza do homem contemporâneo é a estranheza ante ele mesmo, sua radical impossibilidade de se encontrar, de se localizar, de assumir sua interioridade como identidade. O tema do estranhamento acaba nos levando também do discurso político ao discurso urbano. Descobre-se o indivíduo como portador de um conflito em si mesmo, entre sua consciência e sua inconsciência, entre o desamparo e a inquietação. Dessa maneira, não é o indivíduo portador de direitos, liberdades ou princípios universais quem se constitui em sujeito histórico. Fala-se de uma política para um indivíduo enfrentado com si mesmo, desolado pela celeridade com a que o mundo que o rodeia se transforma e, no entanto, necessitado de conviver com os outros, com o outro.

As imagens fotográficas se convertem, desse modo, em indícios territoriais da mesma estranheza, e os problemas estéticos e éticos que propõem envolvem a problemática da vida social contemporânea. A reação da arte é a de preservar esses espaços alternativos, estranhos, estrangeiros a eficácia produtiva da cidade. A arte contemporânea parece lutar pela preservação desses espaços outros no interior da cidade. O entusiasmo por esses espaços vazios, expectantes, imprecisos, flutuantes é, em código urbano, a resposta a nossa estranheza ante o mundo, ante nossa cidade, ante nós mesmos.

Nessa situação, o papel da arquitetura se faz inevitavelmente problemático. Parece que todo o destino da arquitetura tem sido sempre o da colonização, o pôr limites, ordem, forma, introduzindo no espaço estranho os elementos de identidade necessários para fazê-lo reconhecível, idêntico, universal. Pertence à essência mesma da arquitetura sua condição de instrumento de organização, de racionalização, de eficácia produtiva capaz e de transformar o inculto em cultivado, o baldio em produtivo, o vazio em edificado. Desse modo, a arquitetura e o desenho urbano quando projetam seu desejo ante um espaço vazio parecem que não podem fazer outra coisa mais que introduzir transformações radicais, modificando o estranhamento pela cidadania e pretendendo a todo custo desfazer a magia incontaminada do obsoleto no realismo da eficácia. A arquitetura estaria sempre do lado das formas, do distante, do óptico e do figurativo, enquanto que, pelo contrário, o indivíduo, dissociado, da cidade contemporânea buscaria as forças em lugar das formas, o incorporado em lugar do distante. A intervenção na cidade existente, nos espaços residuais, já não pode ser confortável nem eficaz.

A arquitetura pode atuar para não se converter num agressivo instrumento dos poderes e das razões abstratas através da atenção à continuidade. Mas não da continuidade da cidade planejada, eficaz e legitimada, mas, todo o contrário, através da escuta atenta dos fluxos, das energias, dos ritmos que o passar do tempo e a perda dos limites têm estabelecido. Nossa cultura abomina o monumento quando este é a representação da memória pública, da presença do um e do mesmo. Só uma arquitetura do dualismo, da diferença da descontinuidade, instalada na continuidade do tempo pode fazer frente à agressão angustiosa da razão tecnológica, do universalismo telemático, do totalitarismo cibernético do terror igualitário e homogeneizador.