Resenha - Tema C - por Thaíssa Cysne

De Projeto Paisagístico
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Todos os dias, alimento suficiente precisa ser produzido, transportado, comercializado, cozido, comido, eliminado, e algo assim tem que acontecer todos os dias para abastecer cada cidade na Terra. Vivemos nessas cidades como se o abastecimento de comida fosse a coisa mais normal do mundo, esquecendo que, por precisarmos comer, somos tão dependentes do mundo natural quanto nossos ancestrais eram. E enquanto mais pessoas vão se mudando para as cidades, mais partes do mundo natural e de sua paisagem vão se transformando, apenas para sustentar uma dieta insustentável. Uma vez que estabelecem raízes na cidade, raramente mudam.

Milhões de hectares de floresta tropical são perdidos todo ano para se criar terra arável; ao mesmo tempo, perde-se a mesma quantidade de terras aráveis devido à salinização e erosão. E mesmo que haja um grande custo para produzir esses alimentos, estes não são valorizados como deveriam. Atualmente, comida produzida é jogada fora, e mesmo assim não se consegue nem alimentar o planeta adequadamente, contrastando obesos com famintos.

A agricultura e a cidades estão muito ligados, e precisam um do outro, já que foi a descoberta dos grãos, pela primeira vez, que se produziu uma fonte de alimentos grande e estável o suficiente para suportar assentamentos permanentes. Esses assentamentos eram compactos e rodeados por terra agrícola produtiva. Nos mapas de qualquer cidade construída antes da era industrial pode-se identificar a rota da comida. As ruas e espaços públicos eram os lugares onde a comida era vendida e comprada.

No entanto, hoje existe a emancipação final da cidade de qualquer relação aparente com a natureza. Então há a comida - que costumava ser o centro, o núcleo social da cidade - na periferia. Antes era um evento social, comprar e vender comida. Agora é anônimo. Não mais cozinhar, mas sim adicionar água à mistura pronta. E não se valoriza a comida, pois ela não é inconfiável, por isso temida. O sistema moderno de comida, ao possibilitar que se construam cidades em qualquer lugar, nos distancia do nosso relacionamento mais importante, que é com a natureza. E nos tornaram dependentes de sistemas insustentáveis.

O habitante urbano típico de hoje não possui nenhuma consciência de onde e como se produz/comercializa a comida. Tornamo-nos dependentes de grandes e poderosas corporações que operam com a máxima rentabilidade econômica para prover quantidades de comida em grande escala a partir de processos industriais até nossos supermercados, o único lugar onde se tornam visíveis. Tudo o que acontece antes disso é invisível para o consumidor, enormemente complexo e, em última instância, insustentável.

É interessante, para o futuro sustentável das cidades, que a comida se converta novamente em um fator determinante na configuração da cidade. O que se requer, entretanto, é a eliminação do coalho do sistema de produção / distribuição alimentar que está enraizado. As crises econômicas atuais tornam necessário o reajuste urgente dos sistemas de produção / distribuição alimentares obsoletos e ineficientes. Já uma mudança cultural enquanto a relação com os alimentos, sobre tudo devido aos emergentes problemas de saúde, deveria ter dado lugar à produção pessoal dos alimentos a serem consumidos.

Antes que a Agricultura Urbana torne-se uma alternativa viável para alimentar a população, pode se converter em um curso visível de ação. Se nos aproximamos da ideia de que a comida seja um alinhamento mais de projeto urbano, logo a seguir, deveríamos ser capazes de usar o projeto para diminuir não só a distância física, mas também conceitual, entre nós e nossos alimentos.